Sensible Soccers – “Manoel”

No passado dia 1 de Outubro, os Sensible Soccers ofereceram-nos um presente. O “Manoel”, saiu à rua e aquilo que pauta neste disco é o sonho de fazer com que as músicas se enquadrem, como banda sonora, nos filmes de Manoel de Oliveira. Existiram duas inspirações primordiais para o resultado final deste disco. Aqui, as duas inspirações são sinónimas de dois filmes. O “Fauna Fluvial” e o “Pintor e a Cidade” foram a gasolina deste trabalho.


Vestir os filmes de Manoel de Oliveira traz, invariavelmente, uma responsabilidade acrescida. Além desse desafio natural, existiu outro. O facto deste disco ter sido construído, durante um ano, sem que fosse possível obter o feedback do público fez com que a expectativa em torno deste trabalho fosse grande. Expectativa essa, mais extensa do que a N2. O disco divide-se em duas partes, como um jogo de futebol. A primeira parte é mais fechada, com marcações mais cerradas e seguras. Na segunda parte, o disco fica mais ousado e ritmado. As linhas sobem e os movimentos são superlativos. Pode-se dizer que na segunda parte entram as influências da época passada, isto é, do “Aurora”. O facto deste álbum se dividir em dois moods faz dele um trabalho heterogéneo, algo que é capaz de nos preencher nas mais diversas fases e circunstâncias. Passamos pela melancolia, visitamos um mundo tropical, caímos em introspeção e colocamo-nos de pé para um ou dois pés de dança. Mais do que banda sonora, mais do que a ideia de cine-concerto, este disco espelha a coragem e a qualidade, de sempre, dos Sensible Soccers. É orgânico e intemporal. Sentimos a maturidade e a “facilidade” com que eles desenvolvem e tratam o som e, por outro lado, admiramos as mais diversas iniciativas e explorações sonoras que eles são capazes de levar a cabo. Nunca dão cabo de nada. Por falar em cabo, não é um cabo verde, até porque como já disse, é maduro. Sinto que esta intervenção era desnecessária, mas vi uma oportunidade de aplicar esta ideia e não lhe resisti. Se fiz bem? Bem, não sei.


A “antestreia” deste disco, foi feita através da “Cantiga da Ponte. Este som causa logo uma excelente impressão, uma daquelas a cores, das boas. O riff inicial torna este som emblemático. A parte final do som reserva-nos umas batidas calorosas, mescladas com sonoridades ambientais e terapêuticas de tão relaxantes que são. O tema “Barcos” tem um início que nos deixa inteligentemente à deriva, que se vai encontrando, da mesma forma que esse feeling se prolonga. Barcos… nunca tive tanta vontade ter um. O som “23:16” remete-nos para as últimas décadas do séc.XX. Bem, não só este som, como os outros. É um som nostálgico e noturno. Ao ouvir este tema imaginamos luzes, trânsito e faróis de carros acesos. Isto é, luzes mais uma vez. É um som que nos desperta uma certa tensão. Apesar de serem 23:16, nunca é tarde para ouvirmos este som. “Pássaros”, é nome de uma faixa bem nostálgica, mas libertadora, como aquela liberdade exaltada pelos pássaros. Eles que têm esse dom. “Nesse Jardim Onde Só Vai Quem Tu Quem Quiseres”, um tema que nos permite respirar. Este tema podia ser candidato ao Prémio Nobel da Paz, por ser pacífico e por nos transmitir uma tranquilidade, aquela que muitas das vezes nos falta. “Praia da Memória”, conta com uma sonoridade misteriosa e que nos remete para umas telas na areia, só que num tom distinto. Tinto. Com esta praia a nossa memória será sempre incrível. Podemos prescindir do Memofante. “A Noite Inteiro (Karamu)”,
alberga as percussões que nos são familiares, mas que não passam o Natal connosco, do trabalho anterior dos Sensible. Neste som sentimos a alegria dos instrumentos, a impetuosidade e um autêntico carrossel, pela hiperatividade, pela diversão implícita nesta faixa e pelo vício. Queremos ouvir e voltar a ouvir, assim como quem anda de carrossel. Em certo momento, torna-se tão fácil imaginar o mítico som da carrinha de gelados à nossa porta. “Avenida Brasil” é um convite para viajarmos, é um som universal e reto, como uma avenida. Este som é o mesmo que ouvirmos um postal. Somos aliados desta avenida. “Bali Hai”, incorpora uma energia deliciosa. Um som festivo e que semeia a quem o ouve irrequietação. Se este som fosse uma estação do ano seria, com facilidade, o Verão e a sua respetiva personificação. É quente! “Fim”, é um tema que nos serve de créditos, (daqueles que não dão para comprar casas). Semeia em nós flashbacks e é um “Fim” que não deveria existir. Com os Sensible isto é algo de possível, ou seja, eles dão-nos a liberdade de criarmos os nossos próprios filmes, assim como eu criei. A interpretação de cada tema é ampla, apesar de se situar num contexto concreto e definido, podemos recriar e transportar o produto musical para a nossa mente e, a partir daí, navegarmos por diversos mares.


O quarto disco dos Sensible Soccers, apesar de ser o quarto, também pode ser ouvido na cozinha ou noutra divisão qualquer. Um trabalho completo e complexo. Aqueles que esperam ouvir neste álbum experiências eletrizantes e efusivas de A a Z, não contem com isso, até porque este álbum é mais… do que isso. É um trabalho que se vai destapando em diversas camadas. É, por isso, corpulento e sólido no seu conceito. A filosofia dos Sensible Soccers é poliglota, assim como a sua bagagem. Aprendemos a gostar do disco. Porém, temos de o deixar entrar para que ele seja absorvido. Com o tempo vamos descobrindo novos detalhes e velhos amores. É um som que se vai moldando a nós e que que não envelhece. É cinematográfico e é o culminar de uma execução merecedora do nosso aplauso. Mais do que uma homenagem ao cinema, é uma homenagem à música, à cidade e às pessoas que nela vivem. Um concílio entre dois mundos artísticos. Um encontro que foi apresentado por quem nos quer encontrar. É sensorial, e a harmonia por eles encontrada é sublime. Estou a bater palmas. Em termos estéticos, este é um álbum que contou com a participação e criatividade da Graciela Coelho. Este disco ficou, definitivamente, com uma bela imagem de marca. Ouçam-no e desfrutem dele, que a fruta faz bem!

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