Esta edição contou com um cartaz bastante robusto e preenchido nos dois dias. Foi, desta feita, a edição com o maior número de bandas o que demonstra, mais uma vez, o progresso do festival e ambição.
Aliado ao talento nacional o Poço de Noção contou com duas estreias inéditas em Portugal de bandas oriundas do Reino Unido e Itália. Contudo, a grande atração do festival foram os GANSO, até porque o que é nacional é bom e eles comprovaram isso mesmo na segunda noite, apesar de ter sido no Sábado.
A quinta edição do festival contou com um comeback daqueles que fizeram lembrar o comeback de Ornatos Violeta ou até mesmo de Buraka Som Sistema, pelo menos, na região. Os Cabeceiras Rocks 90//26 regressaram aos palcos após um interregno de décadas. A banda reuniu um alinhamento de êxitos oriundos de múltiplas bandas que marcaram a geração do rock nos anos 90 na região. O recinto ficou desde cedo bem composto para assistir a este momento que, seguramente, despertou a nostalgia de muitos e as memórias de outros tantos até porque esse é um dos poderes da música. Foi sentimental esta.

De seguida, subiram ao palco os Vikowski. Banda proveniente de Milão, que trouxe na mochila, até porque bagagem é um termo já gasto, o seu mais recente EP, lançado no primeiro trimestre do ano, o “Consistency”. Com uns timbres sonoros que se conectam com o new-wave e pós-punk, a tripla arrebatou o palco com uma atuação segura e bastante fiel à gravação em estúdio do seu mais recente trabalho. Neste alinhamento, o grupo incluiu um cover de um tema dos The National, Affraid of Everyone. A banda ambientou o espaço com aqueles átomos de Joy Division, The Cure e de mais uma panóplia de bandas que se caracterizam por esta sonoridade que tem tanto de melancólica como de intensa. Uma estreia que ficou na memória da banda e na história do festival, por ter sido a primeira banda italiana a figurar no cartaz.
A última banda a trepar ao palco, até porque já usei o verbo subir no parágrafo anterior, foram os Jepards. A banda veio de mais perto um pouco, de Fafe. Com o seu mais recente álbum editado no início deste ano, o “Pretty Kitsch!”, o conjunto fafense trouxe a euforia e a imprevisibilidade do seu rock para fechar a primeira noite, isto no que toca a bandas e eles tocaram e tocaram bem. Antes de mais, convém salientar que a banda aderiu a um pedido especial dos membros da Noção. Convém salientar que este pedido só surge porque os Jepards fizeram questão de semear os ventos nos stories uma semana antes. O grupo decidiu colocar um story onde o Carlos estava a tocar guitarra em cima de uma árvore num festival que antecedeu o Poço de Noção e, colocaram na descrição, que na Noção iríamos ter o mesmo. Ora, ao ver esta ideia tivemos de a agarrar com unhas e o resto. Como as árvores estavam um pouco distantes do palco, foi proposto à banda que o Carlos subisse para cima do Poço que fica ao lado do palco. E ele não só subiu, como fez um solo memorável para fechar o set. Os Jepards têm atitude e em termos gastronómicos: tomates. Tudo isto contribuiu para que o concerto tivesse todos os ingredientes que um concerto de rock deve (con)ter. A energia, a entrega e o real gosto por tudo aquilo que estar em cima do palco representa.

Finalizados os concertos, foi a vez do DJ A Boy Named Sue descer a palco. Sim, o termo é mesmo este. A pedido do Tiago, o set dele realizou-se junto e no meio da plateia. Um set pautado pelo bom gosto, e por todo o cenário que o Sue tem habituado qualquer pista que pisa e a nossa não foi exceção. Foi regra de um simples. Contudo, a festa com o Sue não começou de madrugada, começou muito antes. Ao fim da tarde o Sue esteve no recinto e demonstrou-se disponível para fazer as transições entre concertos, tocar no horário de jantar e tocar sempre que desse para. Por tudo isto, o Sue demonstrou ser bastante generoso e ter uma real paixão pelo ofício que tão bem representa, sem pedir nada em troca por isso. Um showman que se traduz num ambiente incrível. A envolvência dançou por si e nós dançamos com ele.

Para coroar a primeira noite tivemos o Epirex, um “cliente habitual” que fechou a noite em beleza e, a par do Sue, também ele tocou com a mesa instalada no meio da plateia. De salientar que, no Sunset do primeiro dia contamos ainda com Julio DJ Set.
Feita a primeira direta, eis que chega o segundo dia do festival. O sunset, desta feita, ficou a cargo do DJ Rob. Para iniciar a programação noturna do festival, a mokina trouxe consigo toda a componente indie que se converge com uma atmosfera jazzística para o palco. Ela que se fez acompanhar pela Kika Félix e pelo Duarte Dias, o que contribuiu para um corpo musical muito mais robusto e heterogéneo. Um concerto que se fez todo ele numa vibe “cozy” transmitindo toda uma bela harmonia.
Logo de seguida, foi a vez dos cabeças de cartaz subirem a palco, os GANSO. Banda emblemática do rock alternativo, com as suas letras sempre certeiras e com uma identidade muito imbutida no indie. Chegam ao Poço de Noção no ano em que celebram dez anos de carrieira. Para além disso, trouxeram consigo dois singles lançados no decorrer deste ano: “Mal Vestido” e “Deixar-te”. Temas esses que, em tom de spoiler, foram gravados em direto no palco pelo videógrafo da banda, o Tommy Loureiro. Uma performance e um set que tiveram mais de uma hora de duração, onde o público claramente estava a vibrar e a cantar de pavio a fio todos os temas do grupo. E esta é mesmo uma característica adjacente aos GANSO, a capacidade de terem uma legião fiel de fãs que se manifestam e que embelezam qualquer recinto pela sua devoção à banda. Não faltaram alguns clássico, como “Sorte a Minha” ou “Gino Bolha”. Depois do concerto, a fila para a aquisição de merch era maior do que a fila para os concertos do Justin Bieber. O efeito da dimensão da fila traduziu-se numa palavra: Esgotado. Uma das melhores bandas da nossa geração e uma das maiores referências no panorama nacional atual.
Para fechar o festival em ouro e beleza: The New Cut. Oriundos de Bristol, a banda fundada em 2021, surge com o estatuto de banda emergente internacional. No primeiro trimestre de 2026, o grupo lançou um brilhante EP: “Sleepers, Mourners”, que fez com que o grupo visitasse muitos países. Foi pelas mãos da Associação Cultura & Noção que a banda se estreou em Portugal e em exclusivo, assim como Vikowski na primeira noite. A banda do Reino Unido trouxe consigo uma toada pós-punk e a energia ideal para movimentar o recinto com os seus riffs e letras originais e sagazes. A juventude aliada ao talento tem destas coisas e os The New Cut são a prova ouvida de que a boa música continua a ser feita.
De seguida, o DJ Cozta e o G-ADAS assumiram o palco para manterem os decibéis do festival bem ativos.
Um especial agradecimento a todos os que se deslocaram até ao Poço de Noção, oriundos de vários pontos do país e, este ano, também com público proveniente de países como a Itália. Outro agradecimento vai para todos os nossos patrocinadores.
A quinta edição do Poço de Noção fica para a história, pelas bandas, pelo público e por todos aqueles que fizeram parte destes dois dias repletos de Cultura & Noção!
Fotografia: cadernetamusical_









